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Release Maria da Conceição Tavares/filme

Brasileira como poucos

“Eu tive dezenas de alunos dos quais a metade se corrompeu, uma boa parte desistiu e poucos deles continuam lutando, na batalha”---quem conhece a economista e ex-deputada Maria da Conceição Tavares não terá dificuldade em reconhecer a autora da frase. 
Conceição, como é chamada, será a personagem principal de um documentário que terá a direção do cineasta José Mariani. Que, em seu currículo possui duas importantes realizações, tendo, ambas, como fundo, a economia brasileira: “O longo amanhecer- cinebiografia de Celso Furtado”, de 2005 e “Um sonho intenso”, de 2014.

Atualmente em fase de pré-produção pela Andaluz, o filme deverá mostrar Maria da Conceição Tavares em suas múltiplas facetas, como intelectual, como militante engajada nas causas políticas e sociais, como defensora ardente de suas ideias desenvolvimentistas, como personalidade complexa e polêmica. E ressaltar, sobretudo, que, em todos os momentos, a economista esteve e está comprometida com o desejo de um Brasil melhor, que integre o grande contingente de seus pobres e excluídos.

Maria da Conceição nasceu em Anadia, um vilarejo de Portugal, em abril de 1930. Um mês depois sua família-mãe católica e pai anarquista— transferiu-se para Lisboa.

Conceição fez sua primeira formação em Ciências Matemáticas pela Universidade de Lisboa, graduando-se em 1953.
Em 1954, quando estava grávida de sua primeira filha, Laura, mudou-se para o Brasil.  “Vim para cá em busca de uma democracia e logo depois que nasceu a menina o Getúlio se matou” ironiza. ” Mas passou, depois veio o JK e foi aquela alegria! ” .
Essa irreverencia e franqueza será sua marca registrada. Ainda nos anos 50, cursou Ciências Econômicas na Universidade do Brasil, hoje UFRJ, onde foi aluna e em seguida assistente de Octavio Gouveia de Bulhões, de cujas ideias discordava, mas   por quem tinha o maior respeito. “O velho (Bulhões) era liberal, deixava eu fazer uma discreta oposição heterodoxa, dando matérias que ele não dava”.

O desenvolvimentismo entra na sua vida

Após uma rápida passagem pelo BNDE (hoje BNDES), de 1958 a 60, como analista matemática, aproxima-se da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), órgão da ONU, ao fazer um curso sobre problemas de desenvolvimento econômico. No ano seguinte é convidada a trabalhar na instituição, onde desenvolverá   inúmeras pesquisas, entre elas assessorando o plano de metas de Juscelino Kubitschek. 
“De manhã eu era monetarista entre aspas e à tarde era desenvolvimentista”, costuma brincar.
Nesta época conhece e se aproxima de Darcy Ribeiro, Ignácio Rangel e de Celso Furtado, que ela passaria a considerar seu ‘MESTRE’.
“Celso Furtado é um dos fundadores do pensamento contemporâneo no Brasil, ”, exalta Conceição, “ e não por acaso ele ainda o é hoje, passada as décadas depois de ter escrito a sua “Formação Econômica do Brasil. ” Para ela foi Furtado quem nos arrancou do marasmo do pensamento liberal conservador, que interpretava a economia brasileira através dos os ciclos econômicos, da borracha, do café, “o que era uma leitura muito pouco rica”. “Mestre Furtado ensinou gerações inteiras brasileiras, como refletir sobre o método histórico estrutural. Junto com Prebisch, são seguramente, os dois pensadores mais importantes da América Latina”.

Maria da Conceição ressalta que, ao contrário de Prebisch, que não se dedicou muito à vida acadêmica, Furtado vi a alternância entre ser um pensador rigoroso crítico, revelador dos meandros da história estrutural e analítica da economia e igualmente um homem da ação, “uma coisa pouco comum, muito pouco comum”, nos dizeres da economista.

Embebida por este espírito e já totalmente convertida ao desenvolvimentismo e à teoria cepalina, Conceição publica em 1963 seu primeiro ensaio, “Auge e declínio do processo de substituições d e importação no Brasil”, que terá ao longo do tempo 12 edições em português e duas edições no México.

Militância acadêmica e militância politica

Embora se declare uma economista acima de tudo, “não faço análise política”, costuma enfatizar, a atuação de Conceição Tavares sempre transcendeu a esfera econômica.  Durante o regime militar percorreu o Brasil inteiro fazendo o que chamou de uma militância acadêmica. “Ia aonde me chamavam, conta. “Fui paraninfa de não sei quantas turmas, que me convidavam porque sabiam que eu era briguenta”
Em 1968 foi transferida para a CEPAL de Santiago do Chile. Em 71/72 vai para a França fazer um pós-doutorado na Universidade Paris I, mas volta a Santiago em julho de 72 para servir ao governo socialista de Salvador Allende. Volta ao Brasil ainda em 1973 para reassumir sua cátedra na UFRJ.

A partir de 1978, quando começa o movimento pela anistia, entra no PMDB para assessorar Ulisses Guimarães. Nesta época já era professora do recém-criado curso de pós-graduação em Economia da Unicamp (Universidade de Campinas) - na época um oásis de liberdade de ensino. “Junto a meus colegas (Luís Gonzaga) Belluzzo, João Manuel (Cardoso de Melo) e o Coutinho (Luciano Coutinho) íamos todos os domingos na casa do velho (Ulisses) discutir a questão das diretas já e traçar programas”.

Após a derrota de Ulisses (venceu o Tancredo), Conceição saiu do partido.

Não sem antes prestar uma assessoria ao Plano Cruzado 1 - um conjunto de medidas econômicas destinadas a conter a inflação, lançado pelo governo brasileiro em fevereiro de 1986, na época do presidente José Sarney e o ministro da Fazenda Dílson Funaro. Conceição, na ocasião, chegou a ser chamada de “ a musa do Plano Cruzado”—plano aliás, que acabou não dando certo.

Deputada apesar de tudo

Em outubro de 1994, Conceição elege-se deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores. “Precisavam de uma economista no Congresso, pois o Mercadante tinha saído para concorrer como vice de Lula”, conta. “Aí me empurraram de candidata. Mas eu ganhei a eleição pelo meu prestígio”. 
Para quem acompanhou este período, será difícil esquecer a sua participação coerente, combativa, arguta e irreverente no Congresso Nacional. “Só não participei de uma votação”, orgulha-se. “Foi um período dramático. O Fernando Henrique privatizou tudo, menos o Banco do Brasil e a Petrobrás”, apunhala.

“Década maldita para o nacional-desenvolvimentismo foi a década de 90. Entramos de sola no neoliberalismo”.  Em política internacional, a década, segundo Conceição, foi um desastre. ”Fernando Henrique era o pró-cônsul do Clinton. Defendia a ideia que a globalização era uma maravilha”.

Produção livresca

Depois desta difícil experiência parlamentar, ela nem tentou a reeleição. E relatou tudo no livro “Destruição não criadora—memórias de um mandato popular versus a recessão, o desemprego e a globalização subordinada”, publicada em 1999. Esse livro veio juntar-se a muitos outros, entre os quais “A economia política da crise: problemas e impasses da política econômica brasileira (em colaboração com Mauricio Dias David, em 1982), (Des) ajuste global e modernização conservadora (em parceria com José Luís Fiori, 1993), O Estado que nós queremos (1993), Lições contemporâneas de uma economia popular (1994), Celso Furtado e o Brasil (organizadora), publicado em 2000.
Conceição ao longo de sua carreira acadêmica escreveu dezenas de artigos e colaborou regularmente na Folha de São Paulo, onde seu último texto, publicado em 19 de setembro de 1994, levou o título sugestivo de “Despedida do debate macroeconômico”.

Socialista utópica

“Sou uma socialista utópica”, se auto denomina a economista. “A luta hoje é pelas reformas democráticas, permitir a participação crescente do povo e dos excluídos na condução seu próprio destino”.

Lamenta que, até hoje, não tenhamos conseguido fazer nem a reforma agrária, nem a reforma tributária. “Nem os ricos querem pagar impostos nem os donos da terra querem deixar a terra. E não temos maioria no congresso para derrubar isto”.
E consola-se: “Ninguém tem muita mais esperança de fazer uma reforma agrária radical. O dinamismo agrobusiness hoje leva tudo de roldão. O que temos de fazer é dar apoio à pequena propriedade agrícola”.

Maria da Conceição Tavares apoiou a eleição de Lula em 2002, e embora tivesse duvidado no início das primeiras decisões econômicas do primeiro mandato, acabou por dar a mão à palmatória.

“Quando Lula assumiu recebeu um cheque sem fundo de 14 bi”, lembra.  ”Ele fez uma política ortodoxa para se livrar das dívidas e eu não esperava que desse certo, mas deu. Nós, que não éramos credores desde o pós-guerra voltamos a sê-lo há 2 anos”, declarou em 2010, ao completarou80 anos. “Pela primeira vez estou otimista, um otimismo da razão. Sou uma velha senhora otimista. O que se tem por fazer no Brasil é difícil, mas não impossível”.

Este mesmo otimismo ela já não ostenta em 2015.

‘Essa crise não se parece com nenhuma outra que vivi’, advertiu em uma entrevista ao site Carta Maior, comentando a gravidade do atual momento político. “‘Nenhuma das que acompanhei mais de perto – o pós-Getúlio e a do golpe de 1964, para não falar das outras, como a do fim da ditadura—envolvia um travamento estrutural e político tão difícil’, e completa: ” sem falar no quadro internacional, que é completamente outro, marcado pelo ambiente financeiro destrambelhado’.

Conceição está pessimista, mas não é trágica. ‘O Brasil não vai acabar, nem o capitalismo e não temos golpe à vista, embora haja golpistas à solta’, murmura.

 

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